Memórias Póstumas em Brás Cubas

Pra quem não sabe, Brás Cubas é o povoado mais próximo de Mogi, um vilarejo tacanho de tão pequeno; e onde a malfadada historieta que narrarei ocorreu.

E digo malfadada, porque já é bem sabido que nada de póstumo é muito bom.

Vamos então, até a tão (pouco) afamada Mogi de algum tempo perdido no passado ou no futuro, não sei precisar; já que a fantasia com tom de veracidade é um luxo dispendioso de quem tem muita criatividade.

 

Nasce uma menina meio vermelhinha, tímida e introvertida; bobinha a coitada (Sim, essa sou eu), filha de uma virtuosa e recatada harpista mogiana (Sim, essa é mamãe) e de um pai violento e omisso que se auto-omitiu-se a si próprio depois de ter dado os primeiros acordes na harpa de mamãe.

 

O tempo passou e eu, essa menina bobinha, cresci e virei uma moça bonita; ainda bobinha, mas bonita. Sentia uma grandiosa admiração e amor por minha venerável e talentosa mãe; sempre entre dois adjetivos, coisa chique.

 

Certo dia, minha venerável e talentosa mamãe cansou-se de tocar sua harpa sozinha, e juntou sua solidão com a de um jovem escultor chamado Fauno. Fauno enlouquecia as donzelas com sua aparente indiferença, sempre ostentando uma boina surrada, que dizia ele, era seu charme de artista. O escultor era todo metido a ares europeus, apesar de brasileiro. Era bonito, mas frio, parecia feito de pedra. Ou seria impressão?

 

Certamente previsível, mas de forma incomum, (?) eu, à flor de minha mocidade, sem muitas delongas; cai de amores pelo companheiro de mamãe. O Fauno, desalmado e cafajeste, nem pestanejou, trocando a harpa de mamãe por meu ingênuo tamborim. Passamos longos meses nos amando cheios de culpa, não com tanta, porque sobrava espaço pra muito deleite. Mas o segredo não poderia continuar segredo por muito tempo. Tudo o que é bom (e imoral, diga-se de passagem) dura pouco. E foi o que aconteceu.

 

Em uma tarde nublada (Gosto de tempo nublado, ensolarada é muito clichê, e chuvosa muito dramática), estávamos eu e Fauno à beira de um riacho, onde nos encontrávamos amiúde para perpetrar nosso quase incestuoso romance. Estava o Fauno a ler-me um conto, e eu inclinei-me para um beijo, quando mamãe, estupefata, me freou a ação com um “Oh!”. Grande foi minha surpresa ao vê-la; e tentar explicar, ainda mais sendo boba como eu era, seria inútil. Mamãe retirou-se com dignidade, como se tivesse encerrado uma apresentação. O Fauno deu de ombros. Eu fiquei sem fala. Ouviu-se uma vaca mugindo ao longe. Um sapo coaxou.

 

Dias depois, fui à procura de mamãe, que estava desaparecida desde então. Todo o povoado ficou combalido. Olhavam-me com desprezo. Já não podia suportar tal peso, acrescido pelo fato de que a essa altura, o Fauno foi-se embora do vilarejo. Uns dizem que hoje, o escultor não passa de um pobre coitado que passa seus dias sentado em um parque, de nome Trianon, vendo casais sentados nos bancos e observando lunáticos que acariciam esculturas. Estranho.

 

Terminei minha longa e quase infindável busca - que só não foi infindável salvo pelo fato de ela ter se findado quando a encontrei -  quando a vi sentada de costas, à sombra de uma àrvore e às margens de um riacho (outro!) rosto abatido (como sei do rosto se ela estava de costas? Poxa, eu conheço mamãe!), tocando sua harpa de modo melancólico e belo como sempre. Fiquei observando-a, e só o que pude sentir foi dor e culpa, por um momento interminável. Sua harpa emitia arpejos de tamanha harmonia, de modo que os acordes tão afinados e dolorosamente constantes ecoaram em minha mente, me fazendo pensar em como havia sido vil e cruel. Como que hipnotizada, só pude pensar em vingança. Me vingar de mim mesma pra mamãe. Como é duro ser bobinha.

 

 É claro que na verdade, esse momento também terminou, e terminou quando os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio.  Dei cabo de minha pérfida e caluniosa existência me enforcando com uma corda de harpa. O dono do comércio próximo teve maior prazer em me ceder uma corda de harpa depois que lhe contei a finalidade. O bom samaritano até ajeitou a corda pra que eu me enforcasse, na árvore em cuja sombra minha mãe arpejava minutos antes. Fui sepultada no Vilarejo vizinho de Mogi, Brás Cubas, onde a encontrei. Mamãe, que já ia meio insana, nem ficou sabendo da minha morte. E se soubesse, creio que iria ao enterro pra aproveitar a corda da harpa, que eu fiz questão com o bondoso comerciante de que fosse sepultada comigo. Justo. Não houve honras, nem nenhuma cerimônia. Depois que ficou sabendo de minha história, nem o coveiro se deu muito trabalho, jogou umas sete pás de terra em cima do meu caixote e foi-se embora me caluniando. Tudo bem, sendo verdade o que ele dizia, nem era mesmo uma calúnia.

 

E se essa historia tem registro - dito-a aqui do além ou de onde quer que seja o lugar de onde falo, saiba apenas que são póstumas as palavras - é pra que se tome nota da lição contida em minha tão desditosa história: Roubar namorado de mãe é coisa muito feia.

 

Fim.



Escrito por Bubu às 10h40
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